Pesquisa Datafolha mostrou que um terço dos brasileiros incrimina mulher em caso de estupro

por Giorgia Cavicchioli, do R7

G* tinha só 11 anos de idade e, assim como várias meninas da sua idade na década de 70, trabalhava como empregada doméstica para colaborar com as despesas de casa. Ao contrário das colegas, porém, costumava fazer seu serviço diário com medo. O patrão a olhava de um jeito esquisito, que ela não conseguia entender. Sabia, porém, que aquilo não era certo. Sabia que aquilo não podia acontecer. Mas o que era aquilo?

Abuso. Vários abusos. Abusos seguidos de abusos. Uma menina de 11 anos e o patrão estuprador dentro de casa e sozinhos. Um filme de terror para aquela garota que um dia sonhou em se casar virgem para se guardar para o seu grande amor. “Eu me sentia muito constrangida como ele me olhava”, diz.

Sempre que a patroa — mulher do patrão estuprador — saía de casa, ele mandava a garota de 11 anos limpar embaixo da mesa. Por que? Ele ficava estrategicamente posicionado atrás dela. Olhando. Quando ela estava trabalhando, ele fazia questão de passar por ela seminu e com o pênis ereto. “Mas eu não entendia o que era aquilo”, explica a vítima.

Depois de um tempo, outros homens começaram a frequentar a casa na ausência da patroa. Quando eles passavam pela garota, davam panos cheios de esperma para ela lavar. Enquanto cumpria as tarefas da casa, sem entender o que tudo aquilo significava, o patrão dizia: “Um dia vou fazer isso para você”.

Logo em seguida, dizia que tinha nojo dela. Dizia que jamais a “comeria”. Constrangida, ela perguntava para irmã  “o que era comer uma pessoa”.

Mesmo certa de que aquela situação estava errada, ela continuava seu trabalho. Afinal, precisava do dinheiro. A ingenuidade e o medo faziam com que ela, todos os dias, colocasse seu uniforme de empregada e fosse trabalhar. Um conjunto característico, com calça bege, “bem feio por sinal”, segundo ela própria descreve: “Bege para mim é cor da doença”.

Até ali, apesar da conduta obscena do patrão, a violência se limitou às palavras e aos gestos.

Até que chegou uma manhã. A pior de sua vida. A menina de 11 anos chegou 7h30 no seu trabalho. A patroa tinha deixado uma clara recomendação antes de sair: “Faz a comida e vai embora”. Parece que ela pressentia o que estava por vir.

Então, a jovem cumpriu a missão do dia, fez a comida e ouviu do patrão outra recomendação: ficar, porque ele iria receber visitas. A garota sentia que algo estava errado. Mas era uma criança. Que criança de 11 anos sabe diferenciar o certo do errado? O que mandavam, ela simplesmente fazia. Do outro lado, havia um adulto. Era seu patrão. Ela tinha que obedecer.

Ela ficou limpando. Ele? Passava e olhava. Ela desviava o olhar: olhava o cachorro, olhava o prédio pela janela. Ela tinha que ficar. Não tinha como negar uma ordem do patrão.

Depois de duas horas no trabalho, ouviu pessoas chegando. Foi até a sala e os quatro homens que estavam lá se olharam e riram. Logo em seguida veio a ordem do patrão: “Serve o café”. Mais uma vez, cumpriu a ordem. Mas em seguida sentiu que precisava sair daquele lugar.

A passos largos, foi para o quarto de empregada. Praticamente correu. Queria se trocar. Queria tirar aquela roupa bege de empregada e colocar sua roupa de criança. Quando estava se trancando dentro do quartinho, para ter seu momento de privacidade, um pé segurou a porta.

Logo em seguida, ela recebeu mais uma ordem: “Se você não gritar, vai doer menos”.

Dessa vez, porém, não conseguiu obedecer e gritou. Gritou muito. Berrou. Mas seu desespero e seus gritos de criança foram abafados pela música alta que tocava dentro da casa.

Ouviu dos estupradores, em meio a mordidas que tiraram sangue de sua pele e sorrisos durante a masturbação de seu patrão, que não adiantava gritar. “Ninguém vai escutar”.

Os abusos foram de todas as formas imagináveis. Todo o corpo foi violado. Todo. Um estupro coletivo. Lá estavam quatro homens e uma menina de 11 anos. Quem é o culpado? “Eu era uma menina muito bonita, mas eu era uma criança”, justifica.

Depois do crime, o banho. O patrão levou a menina machucada para tomar um banho. Ela não tinha qualquer reação. Ficou estática, apenas observando a água correndo pelo ralo com muito sangue. Doía muito. Mais que a dor física, porém, doía a alma. A alma não tem cura.

Pensava em desistir de viver, em se matar. Queria sua morte, queria sair daquela situação. Mais uma vez se perguntou: quem é o culpado?

Para parcela expressiva da população brasileira, a culpa é da menina de 11 anos. Pesquisa Datafolha divulgada nesta quarta-feira (21) indica que um terço dos brasileiros acredita que, em caso de estupro, a culpa é da mulher (isso inclui homens e mulheres).

Entre os homens, o pensamento é ainda é mais comum: 42% deles dizem que a violência sexual acontece porque a mulher não se dá ao respeito ou usa roupas provocativas.

Hoje, aquela menina abusada ainda sente na pele o preconceito. Aos 50 anos, Goretti Bussolo, do Instituto Todas Marias, diz que faz questão de usar roupas curtas e de ser uma mulher sensual. Muito disso se deve ao que passou. Quer se sentir bem com ela mesma.

Porém, recentemente, ouviu um comentário que a fez voltar para aquele uniforme bege feio. “Eu não posso acreditar que você possa ter sido violentada porque olha a roupa que você usa”, disse uma psicóloga ao ver a mulher usando um vestido vermelho e salto alto.

“Quando eu tinha 11 anos, eu não usava roupa curta, não usava vermelho”.

Para ela, a pesquisa divulgada hoje mostra como o machismo “é sistêmico” em nossa sociedade. Para exterminar esse vício da sociedade, Goretti diz que é preciso que os homens sejam tratados. Precisam saber que não é certo estuprar alguém em nenhuma circunstância.

Para ela, não é a mulher que deve se preocupar com a roupa que usa, com a forma como age, se está ou não sozinha na rua…

Até hoje, a mulher de 50 anos que foi um dia a menina de 11, diz que ouve “você gostava, né?” A resposta dela é: “Eu era uma criança”.