Tarde de sexta-feira no campo do Tangará, aos poucos aparecem as meninas e meninos do bairro que são convidadas pelo toque do berimbau a mais um dia de atividades com o Projeto RUAS. Aparentemente tímidos as meninas e meninos esperam a chegada de todas/os do grupo, enquanto isso, contam o que gostariam de fazer de diferente nas férias para além do que já fazem, as respostas são todas muito semelhantes “poder brincar mais”, “fazer capoeira”, “jogar vídeo-game”. As respostas que aparentemente mostram que as crianças não querem nada muito grandioso ou impossível trazem um elemento que se encontra nas entrelinhas das falas dessas crianças e na margem de suas realidades, o direito de brincar, que ao ser reconhecido toma outra proporção, pois o “precisamos brincar mais” que parte dessas crianças é sintomático. Junto a isso, o reconhecimento por parte delas mesmas que o [direito de] brincar faz parte de seu desenvolvimento e por isso é necessário, e que parte, de um processo de empoderamento dessas crianças proposto pela presença do Projeto RUAS – Resistência Urbana e Atitude Social – no território.

O grupo composto por meninos e meninas do bairro, e que vem acontecendo desde agosto, utiliza da capoeira para tratar da identidade, território e ancestralidade, partindo do questionamento a priori simples feito as crianças do grupo: “Vocês já nasceram no Tangará? de onde e porque vocês vieram para cá?”, se pretende propor um entendimento dessas crianças de sua própria história, trajetória e construção de sua identidade, baseados na pesquisa e narrativa das próprias crianças feitos a partir do relato de suas/seus parentes e cuidadoras(es), entendendo a identidade como resultado de um processo que está ligada as origens e história familiar.

Capoeira no Tangará (10/2016)

É em seu bairro que essas crianças constroem suas histórias e relações, é na prática do brincar que elas permitem trocas e compartilhamentos de suas vivências e construções pessoais e sociais, e é nesta prática que essas crianças se relacionam entre si, e tem outro tipo de expectativa no grupo formado. Onde no inicio havia xingamentos vazios ente as crianças, se construiu outro tipo de relação, onde se pode demonstrar afetividade sem medo de represálias, onde as crianças entendem o respeito não como uma conduta imposta, mas sim como parte do bem viver e bem estar coletivo.

A apresentação da capoeira e de sua musicalidade às crianças, trazem uma perspectiva que é histórica e que ilustra a necessidade da valorização dessa história que é não só pessoal, mas social, e a partir do entendimento e construção de suas identidades e do território em que vivem, se transformam as visões e perspectivas das crianças em relação ao bairro, que na maioria das vezes é uma reprodução do que é produzido pela grande mídia, que marginaliza as/os moradoras/es dos bairros periféricos e cria esse não pertencimento ao lugar onde essas crianças vivem. Sendo uma das propostas das atividades nas RUAS do Tangará, ressignificar tudo o que se tem de simbólico e que contribui para uma construção distorcida da realidade e pessoas que vivem ali.

O Tangará se localiza nas margens da represa Billings, e tem seu nome emprestado de um pássaro, que é azul e verde, assim como a represa e os resquícios da Mata Atlântica que o circundam, tendo em sua história diversos episódios de luta por moradia, o que ilustra a trajetória dessas meninas e meninos que participam do grupo do Projeto RUAS, crianças cheias de histórias, vontades e potencialidades.