Seja na escola ou na rua, esses locais onde acontece uma série de violências são também onde as pessoas se encontram, se relacionam, se divertem e se articulam para transformar sua realidade

Por Thiago Borges

Estudantes da Escola Estadual Tancredo de Almeida Neves, no Jardim Novo Horizonte (Extremo Sul de São Paulo), preparam uma peça de teatro sobre o genocídio negro. No dia 01 de outubro de 2016, a escola foi cenário de mais um episódio desse plano estatal: Matheus Freitas, um universitário negro de 24 anos, foi baleado por policiais militares enquanto conversava com amigos na quadra e morreu dois dias depois.

O colégio, que já sofreu um incêndio e ainda mantém salas em ruína, também foi ocupado por alunos reivindicando melhorias em 2015. A escola é reflexo de violências e violações de direitos que acontecem nas ruas, onde as injustiças e ausências do poder público se tornam evidentes. Mas nesses pontos existentes em cada território é também onde as pessoas se encontram, se relacionam, se divertem e se articulam para transformar sua realidade.

Por isso, desde 2015 o Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente – CEDECA Interlagos em parceria com a fundação alemã KHN (Kindernothilfe) atua com o Projeto RUAS (Resistência Urbana e Atitude Social) para que o território seja um espaço de garantia e efetivação de direitos.

No Jardim Tangará, crianças têm aula de capoeira

No Jardim Tangará, crianças têm aula de capoeira

O projeto se articula por meio da equipe do eixo de mobilização e, em setembro do ano passado, iniciou uma série de atividades em sete territórios do Extremo Sul historicamente afetados pela violação de direitos e violência do Estado: Jardim Tangará, Escola Estadual Loteamento das Gaivotas III (Jardim Gaivotas), comunidade Porto Seguro e CEU Navegantes (Cantinho do Céu), Marsilac, ocupação Jardim da União e na EE Tancredo. Em breve, as ações devem se estender também para o bairro do Barragem.

A partir do mapeamento das especificidades e necessidades de cada lugar, a cada semana um educador ou educadora e um oficineiro ou oficineira visitam esses locais, onde fazem atividades de arte e mídia, teatro e cultura popular ou capoeira. Com até 25 participantes, os grupos têm de crianças de 01 ano a jovens de 19. Mais do que promover alguma ação cultural, as oficinas são uma ferramenta para discutir e e disseminar direitos de crianças e adolescentes. E muitas vezes, é na hora do lanche em que os vínculos de confiança se estabelecem e as queixas aparecem.

“O território não é estático. Ele é dinâmico. E a cada semana tem uma surpresa”, observa Will Ferreira, educador do RUAS. Entender a lógica de cada espaço e pensar como encaminhar isso são um desafio. Enquanto algumas comunidades têm grande histórico de violência policial, em outras o autoritarismo se dá de forma simbólica, em outras instituições que representam o poder do Estado.

Já no Jardim da União, como a área é considerada uma ocupação irregular, conflitos que são comuns nas quebradas são ainda mais tensos.  “As crianças lembram de tudo na ocupação, de quando os barracos ainda eram de lona, de quando não tinha nem banheiro”, conta Will.

Apesar de estarem no mesmo território, as violações de direitos e violências são diferentes para participante. Por isso, a escuta precisa ser ativa e o olhar dos educadores deve ser individualizado. Mas há pontos que emergem com mais força dependendo do território.

Como a situação de violência é tão naturalizada, em muitos casos a população das comunidades não consegue romper esse ciclo com facilidade. Por isso, o trabalho do RUAS é de longo prazo: o projeto deve ser realizado por cinco anos. Nesse período, Will espera que para além das diferenças de cada território, essas crianças e adolescentes percebam o que há em comum e que possam lutar juntas e a partir de suas próprias perspectivas.

“A comunidade, muitas vezes, esquece que as crianças estão ali, mas as crianças percebem tudo que acontece na comunidade”, completa.