No Brasil de Fato

Enquanto o presidente golpista Michel Temer discursava no Fórum Global da Criança na América do Sul, na sede da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), em São Paulo, dezenas de manifestantes das frentes Povo Sem Medo e Brasil Popular, além de integrantes de diversas organizações em defesa das crianças e adolescentes, faziam um protesto do lado de fora do prédio, localizado na avenida Paulista. O evento foi organizado pela Fundação Global Child Forum em parceria com a Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) e a Childhood Brasil.

Além da oposição ao governista, demonstrada em seguidos gritos de Fora, Temer!, o ato, que contou com a presença de cerca de 70 pessoas, criticava a presença do Unicef ao lado de Temer e Paulo Skaf, presidente da Fundação, em um evento que almeja parcerias entre empresas e organizações da sociedade civil para promover a garantia de direitos às crianças e adolescentes.

A ativista Bruna Leite, da fundação suíça Tdh (Terre des hommes) de defesa dos direitos de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade, lembra que essa não era a posição do escritório das Nações Unidas (ONU), à época da votação da PEC do Teto dos Gastos.

“A Unicef tem uma posição meio contraditória porque eles estão apoiando esse evento. Mas quando aconteceu a votação da PEC, a ONU no Brasil disse que esse congelamento, em 20 anos, iria representar uma inúmera quantidade de violações aos direitos humanos”, disse.

O evento, realizado pela primeira vez no país, é organizado pela Unicef e a Childhood Brasil. O Rei Carl XVI Gustaf e a Rainha Sílvia da Suécia também compareceram ao Fórum para dividir experiências sobre o modelo de educação no país nórdico.

Segundo Ana Melo, do Fórum Municipal de Educação Infantil de São Paulo, todo mundo sabe que [a educação na Suécia] é de primeira linha, com financiamento altíssimo, que eles têm um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) dos mais altos do mundo, com financiamento contínuo”, afirma. Não é possível, segundo Ana Melo, que “cheguem aqui para dizer 30 ideias, 30 maneiras para a gente desenvolver em 30 dias, como investir na criança pequena”, completou.

O evento também discute a implantação do programa Criança Feliz, que tem como embaixadora a primeira-dama Marcela Temer e promove o desenvolvimento integral de crianças até três anos de idade. “É o programa que a senhora Marcela [Temer, primeira-dama] coordena. Imagine vocês, a ‘bela, recatada e do lar’, coordenando um programa para a infância, onde o senso comum predomina?”, critica Ana Melo.

Unicef

Em entrevista ao Brasil de Fato, Adriana Alvarenga, coordenadora do escritório da Unicef em São Paulo, apontou que o evento é “importante para a América do Sul porque diversos países da nossa região alcançaram enormes avanços na garantia dos direitos das crianças e adolescentes. Só que no meio do caminho foram ficando muitas crianças e a gente só pode descansar a hora que todas elas estiverem alcançadas”.

Sobre dividir o protagonismo do evento com o governo golpista de Michel Temer, Adriana disse não ver “contradição”. “Acho que o direito à manifestação continua sendo saudável”, apontou a coordenadora. Para ela, “Qualquer que seja o presidente, nós estaremos do lado do país”.

“O Unicef trabalha, em todos os países, em cooperação aos governos. E isso acontece por meio de uma discussão com cada um dos governos, em cada um dos países. A gente assina com eles um termo de cooperação”, apontou.

Truculência

Fotos: José Eduardo Bernardes

Os manifestantes começaram a se reunir em frente à Fiesp por volta das 8h da manhã. A concentração de policiais militares de São Paulo no prédio também começou cedo. Um grande efetivo foi deslocado para a região para evitar que manifestantes se aproximassem da entrada da Federação.

Daudenia Paulino, do Cedeca (Centro de Defesa dos Direitos das Criança e do Adolescente) Sapopemba, foi uma das pessoas acuadas pelo militar.  Segundo ela, a atitude “faz parte de um estado de exceção. Onde já se viu uma manifestação pacífica ser ameaçada de acabar em um Distrito Policial?”.

Segundo um dos militares que comandavam a operação, qualquer manifestação contrária a Temer deveria se concentrar do outro lado da avenida. Em um vídeo registrado pelo Brasil de Fato, o militar ameaça deter manifestantes que permanecessem em frente ao prédio.