No Jornal O Globo

Período fundamental para o desenvolvimento e bem-estar ao longo da vida, a primeira infância ganhou um diagnóstico inédito no Brasil revelado, na última quarta-feira (29/03), pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O documento “Aspectos dos cuidados das crianças de menos de 4 anos de idade” é um suplemento da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2015 e traz informações socioeconômicas sobre as 10,3 milhões de crianças nesta faixa etária, que correspondem a 5,1% da população brasileira.

Estas crianças estão em 13,7% dos lares do país, chegando a um percentual maior no Norte (18,2%) e menor no Sul (12,2%). Há, porém, uma distribuição desta faixa etária que chama a atenção: menores de 4 anos estão mais presentes em domicílios de baixa renda. Classes com rendimento abaixo de um salário mínimo per capita concentram 73,9% dos lares com crianças pequenas, e apenas 40,9% dos lares sem crianças nesta faixa. A partir da renda per capita acima de um salário mínimo, esta relação é invertida, com a maioria dos domicílios sem menores de 4 anos.

Além disso, o rendimento médio mensal per capita de lares com crianças pequenas é de R$ 715, ou seja, 53% do que as casas sem pessoas desta faixa etária, de R$ 1.348.

“Este estudo foi desenvolvido com o então Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome [em maio de 2016, a pasta passou a integrar o Ministério do Desenvolvimento Social e Agrário] no contexto do programa Brasil Carinhoso. Dados já mostravam que a pobreza era bastante incidente em domicílios com crianças”, aponta Adriana Araújo Beringuy, analista da Coordenação de Trabalho e Rendimento do IBGE.

Mesmo que as crianças não contribuam para o rendimento das famílias por não trabalharem — diminuindo o “bolo” a ser dividido per capita —, Beringuy ressalta que, mesmo assim, dados absolutos para o rendimento dos domicílios também mostram uma associação entre presença de menores de 4 anos e renda menor.

Foi observada, também, uma menor cobertura de serviços de saneamento em casas com crianças pequenas. Nestas, uma rede coletora de esgoto ou fossa séptica estão presentes em 77,1% dos lares, enquanto para lares sem estas crianças, o valor sobe para 81,2%. A diferença de alguns pontos percentuais é observada também no abastecimento de água e na gestão do lixo.

“Esta diferença foi observada principalmente na região Norte, no esgotamento sanitário, região que no quadro geral já tem uma cobertura menor em relação a outras. Crianças nesta faixa de idade são mais suscetíveis a contaminações, verminoses e disenteria, entre outros problemas”, aponta Beringuy.

A primeira infância é normalmente classificada como o período que engloba os primeiros seis anos de vida. Uma série de estudos já mostrou que estímulos e condições adequadas nestas idades têm papel essencial ao longo da vida, afetando aspectos cognitivos, de saúde e relações interpessoais.