Na Agência ONU

Em seminário sobre depressão realizado no início da semana (3 de abril), em Brasília, pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), especialistas alertaram para os riscos e causas da doença, que pode levar ao consumo abusivo de drogas. Pesquisadores reunidos no escritório da agência da ONU também chamaram atenção para o preconceito e a exclusão que tornam negros, pessoas trans e indígenas mais propensos a desenvolver o transtorno mental.

“Ser negra ou negro no Brasil, em função do racismo, significa ter problemas de saúde mental constantes”, ressaltou a professora e pesquisadora do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ), Jaqueline de Jesus. Atualmente, a depressão afeta 11,5 milhões de brasileiros, de acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS).

A patologia, segundo Jaqueline, é um dos principais efeitos patogênicos da discriminação racial para a população negra brasileira, também mais suscetível a distúrbios cardiovasculares, imunodeficiências, diabetes e outras enfermidades. De acordo com Jaqueline, essa realidade mudará apenas quando ações afirmativas eficazes forem elaboradas para combater a discriminação e para promover a igualdade no acesso a saúde para os afrodescendentes.

Lyah Côrrea, psicóloga e ativista, ressaltou que “as depressões podem refletir os impactos e dinâmicas sobre o estigma social que as identidades trans causam”.

A especialista acrescentou que “falar sobre isso é visibilizar um grupo populacional que histórica e culturalmente não existia”. “Ou existia, mas na ordem patológica, da marginalidade, da criminalidade. Infelizmente, é assim que as trangeneridades são debatidas.”

Para Côrrea, é fundamental despatologizar a identidade das pessoas trans, ou seja, a sociedade precisa parar de tratá-las como indivíduos doentes. Segundo ela, o suicídio é muitas vezes uma forma de pôr fim ao sofrimento causado pelo preconceito e pela invisibilidade.

A prevalência da depressão em comunidades indígenas também foi discutida no debate por Oraide Siqueira, psicóloga do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) de Manaus. Na área em que a profissional trabalha, o transtorno mental atinge pessoas com idade entre 20 e 71 anos, sendo as mulheres as mais acometidas.

“O que vai ser da comunidade?” e “O que vai ser do futuro do indígena?” estão entre as principais queixas ouvidas por Oraide. “Muitas comunidades já não conseguem mais passar seus valores culturais. Há também a questão do álcool e outras drogas. Quanto mais próximos das cidades, mais problemas os indígenas acabam tendo”, disse a terapeuta.


Uso abusivo de drogas

Roberto Del Águila, coordenador da Unidade Técnica de Determinantes Sociais e Riscos para a Saúde, Doenças Crônicas Não-Transmissíveis e Saúde Mental da OPAS, lembrou que embora muitas pessoas com mais de 60 anos sofram de depressão, o transtorno mental pode ter início ainda na infância e adolescência.

“O problema com a depressão durante a adolescência é que muitas vezes ela desencadeia o consumo de álcool e outras drogas, e também a violência. Não temos que buscar entender o alcoolismo e a adicção (vício), mas compreender a depressão, que leva ao uso dessas substâncias”, explicou o especialista.

A relação entre a depressão e o consumo de álcool e outras substâncias foi o tema da apresentação de Flávia Fernando, psiquiatra e doutoranda em psicologia da Universidade Federal Fluminense (UFF). “Rejeitamos aquele que abusa do álcool, rejeitamos ainda mais os usuários de drogas ilícitas. Existe a produção do estigma, que é uma marca que atravessa nosso modo de ver e de diminuir o outro”, afirmou.

Para a médica, é preciso entender o sofrimento dos que usam drogas lícitas e ilícitas para entender “ao que a droga serve, qual a função, nessa singularidade, que a droga ocupa”.

ONU contra o estigma

O seminário realizado na OPAS em Brasília fez parte das atividades da agência para o Dia Mundial da Saúde, lembrado nesta sexta-feira (7). O organismo regional e a Organização Mundial da Saúde (OMS) decidiram marcar a data com a campanha “Depressão: vamos conversar”. Nas Américas, são 50 milhões vivendo com o transtorno mental.

“O primeiro passo para receber tratamento é falar. Se você conhece alguém com depressão, escute o que ela tem a dizer. Se você sofre de depressão, dê o primeiro passo hoje. Fale com alguém”, afirmou a diretora do organismo regional, Carissa Etienne, em mensagem de vídeo transmitida no seminário.

“É preciso gerar condições para que se possa falar de depressão nos diversos ambientes da vida, no trabalho, na família, em relação às características diferentes para os idosos, para os jovens, homens e mulheres. Enfim, precisamos falar da depressão para dar voz às pessoas que enfrentam esse problema”, defendeu a representante substituta da OPAS para o Brasil, Mónica Padilla, também presente no seminário.

Segundo a dirigente, a falta de apoio às pessoas que vivem com transtornos mentais, somada ao medo e ao estigma, impede muitos indivíduos de receber o tratamento de que necessitam para uma vida saudável e produtiva.