De forma estarrecida e com total repúdio, nós do Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente – CEDECA Interlagos acompanhamos o desenrolar das ações autoritárias e desumanas da Prefeitura de São Paulo e do Governo do Estado contra moradores da região da Luz (no centro da cidade) bem como usuários de drogas e dependentes químicos que circulam pelas cenas de uso conhecidas como “Cracolândia”.

Entre 2014 e 2016, em parceria com a Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania, o CEDECA Interlagos atuou na região por meio do Projeto Oficinas com oficinas lúdico-políticas buscando a articulação em rede e o protagonismo de sujeitos atendidos (na foto em destaque, o Blocolândia).  Atualmente com três convênios em vigência para administração de serviços da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS) na zona Sul de São Paulo, a organização compreende que essa é mais uma ação vertical dos governos em detrimento à construção de alternativas reais para a resolução do problema.

Alinhada à contínua precarização do serviço social na cidade de São Paulo, acentuada sob o governo Doria com a gestão de Soninha Francine à frente da SMADS, a criminalização de indivíduos em situação de vulnerabilidade teve um salto com a presença do novo secretário da pasta Filipe Sabará.

Vimos isso desde domingo (21 de maio), quando agentes da Polícia Militar invadiram a região conhecida como “Cracolândia” com a justificativa de desmantelar o mercado de drogas ilícitas, descumprindo acordo feito entre a Prefeitura e o Ministério Público, e provocando verdade pânico e correria de usuários e dependentes químicos pelas ruas adjacentes. No cenário de caos promovido por prefeito e governador, sem a presença de assistentes sociais ou de equipes de saúde, João Doria declarou o “fim da Cracolândia”, enquanto centenas de pessoas se abrigavam da chuva e do frio em postos de gasolina e praças vizinhas.

Também vimos a continuidade da repressão nos dias seguintes, com o fechamento de comércios e destaque na mídia hegemônica, culminando na demolição de imóveis antigos  sem autorização e com moradores dentro – o que resultou em pessoas feridas, minimização de secretários e silêncio de Doria e Alckmin.

Como se não fosse suficiente, nesta quarta-feira (24 de maio) somos surpreendidos com o pedido da Prefeitura de São Paulo para o Ministério Público autorizar a internação compulsória de dependentes químicos em clínicas de tratamento, contrariando a liberdade dos indivíduos e generalizando a aplicação de um dispositivo legal.

Dessa forma, o CEDECA Interlagos manifesta seu repúdio às ações espetaculosas e demagógicas da Prefeitura de São Paulo e do Governo do Estado, feitas sem qualquer diálogo, por entender que a operação não busca o combate ao mercado de drogas ilícitas nem a recuperação de dependentes químicos, mas sim atende às demandas do mercado imobiliário com a substituição da população daquele território para mera exploração comercial. Também manifesta apoio a moradores da região, usuários, dependentes químicos e trabalhadores que estão sofrendo com esses atos e em luta contra a opressão estatal.