Na Agência ONU

A desigualdade de gênero continua a ser um dos desafios mais urgentes que o mundo do trabalho enfrenta. As mulheres são substancialmente menos propensas do que os homens a participar do mercado de trabalho e, uma vez no mercado de trabalho, elas têm menor probabilidade do que os homens de encontrar emprego.

Além disso, a qualidade desse emprego continua a ser uma preocupação fundamental, segundo um novo relatório global lançado nesta quarta-feira (14) pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), “Perspectivas Sociais e de Emprego no Mundo – Tendências para Mulheres 2017”.

Ajudar as mulheres a acessar o mercado de trabalho é um primeiro passo importante. Ainda assim, em 2017, a taxa de participação na força de trabalho global para as mulheres (pouco mais de 49%) é quase 27 pontos percentuais menor do que a taxa para os homens (76%). A OIT prevê que estas taxas permanecerão inalteradas em 2018.

No Brasil, a OIT estima que a taxa de participação feminina no mercado de trabalho em 2017 seja de 56% – uma diferença de 22,1 pontos percentuais em comparação com a participação masculina, estimada em 78,2%.

Em 2014, os líderes do G20 se comprometeram a reduzir em 25% a diferença nas taxas de participação entre homens e mulheres até 2025. O relatório da OIT estima que, se esse objetivo fosse alcançado em nível global, ele teria o potencial de adicionar 5,8 trilhões de dólares à economia global, além de gerar grandes receitas fiscais em potencial.

Por exemplo, a receita global de impostos poderia aumentar em 1,5 trilhão de dólares, a maior parte em países emergentes (990 bilhões de dólares) e desenvolvidos (530 bilhões de dólares). A África do Norte, os Estados Árabes e o Sul da Ásia teriam os maiores benefícios, dado que nessas regiões as diferenças nas taxas de participação entre homens e mulheres excedem 50 pontos percentuais.

No Brasil, o efeito seria um aumento de até 382 bilhões de reais ou 3,3% no PIB e um acréscimo de até 131 bilhões de reais em receita tributária.

Promovendo o bem-estar

Além dos benefícios econômicos significativos, o engajamento de um número maior de mulheres no mundo do trabalho teria um impacto positivo no seu bem-estar, já que a maioria das mulheres gostaria de trabalhar.

“O fato de que metade das mulheres em todo o mundo está fora da força de trabalho, quando 58% delas preferem trabalhar em empregos remunerados, é uma forte indicação de que há desafios significativos que restringem suas capacidades e liberdade de participação”, disse a diretora-geral adjunta para políticas da OIT, Deborah Greenfield.

“A preocupação mais imediata para as pessoas responsáveis pelo desenvolvimento de políticas, portanto, deve ser aliviar as restrições que as mulheres enfrentam para escolher entrar no mercado de trabalho e abordar as barreiras que elas enfrentam quando estão no local de trabalho”.

Desemprego ainda é maior para as mulheres

Quando as mulheres participam do mercado de trabalho, elas têm maior probabilidade de estarem desempregadas do que os homens.

Globalmente, a taxa de desemprego para as mulheres em 2017 é de 6,2%, representando uma diferença de 0,7 pontos percentuais com relação à taxa de desemprego dos homens, de 5,5%. Em 2018, espera-se que ambas as taxas de desemprego permaneçam relativamente inalteradas, mantendo a desigualdade no seu nível atual, sem nenhuma melhora esperada antes de 2021, com base nas tendências atuais.

Oportunidades de emprego limitadas

Entre as mulheres empregadas em todo o mundo, quase 15% são trabalhadores familiares não remuneradas, em comparação com mais de 5% dos homens. Nos países em desenvolvimento, onde cerca de 36,6% das mulheres e apenas 17,2% dos homens são empregados como trabalhadores familiares não remunerados, a diferença é maior, de 19 pontos percentuais.

A preferência e a decisão da mulher de participar no mercado de trabalho e seu acesso a empregos de qualidade podem ser afetados por uma série de fatores, incluindo discriminação, educação, tarefas de cuidado não remuneradas, equilíbrio entre trabalho e família e estado civil. A conformidade do papel de gênero também afeta a restrição das oportunidades de trabalho decente para as mulheres.

“Precisamos começar mudando nossas atitudes em relação ao papel das mulheres no mundo do trabalho e na sociedade. Muitas vezes, alguns membros da sociedade ainda utilizam a desculpa de que é ‘inaceitável’ que uma mulher tenha um emprego remunerado”, disse o principal autor do relatório, Steven Tobin. Por exemplo, 20% dos homens e 14% das mulheres pensam que não é aceitável para uma mulher trabalhar fora de casa.

O relatório recomenda medidas abrangentes para melhorar a igualdade das condições de trabalho e reformular os papéis de gênero, incluindo: promover a igualdade de remuneração por trabalho de igual valor; abordar as causas profundas da segregação ocupacional e setorial; reconhecer, reduzir e redistribuir as tarefas de cuidado não remuneradas; e transformar as instituições para prevenir e eliminar a discriminação, a violência e o assédio contra mulheres e homens no mundo do trabalho.

“As políticas também devem abordar os fatores socioeconômicos que influenciam a participação, introduzindo políticas que melhorem o equilíbrio entre trabalho e família e criem e protejam empregos de qualidade na economia de cuidados, visando ao ambiente macroeconômico e à economia informal”, concluiu Tobin.

A Conferência Internacional do Trabalho deste ano, que está acontecendo em Genebra, na Suíça, irá realizar um Painel de Alto Nível sobre o Mundo do Trabalho na quinta-feira (15), para discutir como moldar um futuro melhor para as mulheres no trabalho.

Acesse no site da OIT o relatório completo clicando aqui (www.ilo.org/weso) e um resumo com os dados do Brasil aqui (http://bit.ly/2rsqqRK)