Na Revista Época

Aos 57 anos, dona Marlene Lopes Bittencourt Ribeiro acorda todos os dias da semana, incluindo sábados e domingos, às 4 horas da manhã para trabalhar. Ela tem exatamente 20 minutos para se trocar e preparar um café preto antes de a campainha tocar. Ela se move devagar. Um problema no joelho, somado à desaceleração do metabolismo, normal para a idade, contribuiu para o ganho de peso. Dona Marlene é uma mulher grande: coxas e quadris muito largos fazem seu 1,70 metro parecer mais. Hoje passa boa parte do dia sentada na sala de pouca luz em frente a uma TV de 49 polegadas presa à parede. Levanta-se para cozinhar, alimentar e trocar as três crianças que passam o dia, ou parte dele, em sua casa, na favela de Heliópolis, em São Paulo. A primeira, Emily, de 1 ano e 5 meses, chega ao portão de sua casa, com a rua ainda escura, às 4h20 da manhã. As outras duas chegam às 17 horas, quando voltam da escola. Yuri, de 4 anos, fica com ela até as 19h30. A pequena Eloá, de 3 anos, até as 23 horas, horário em que sua mãe chega do trabalho.

Dona Marlene é mãe crecheira, ou mãe comunitária. Seu trabalho é cuidar de crianças de famílias da comunidade de Heliópolis, onde mora, enquanto os pais estão no trabalho. Recebe R$ 900 por mês para cuidar das três crianças. Esse valor contempla também a alimentação dos três para todo o mês. Dele, dona Marlene também desconta o que paga de INSS. O que sobra ajuda a completar a renda do marido, já aposentado. As mães crecheiras proliferam pelas comunidades pobres do país. Elas preenchem uma lacuna deixada pelo Estado – apenas 25% das crianças no Brasil são atendidas por creches, segundo dados divulgados neste ano pelo IBGE. São responsáveis também por cuidar de crianças que ficariam sozinhas em casa, fora do horário de aula, quando os pais estão no trabalho.

No dia em que recebeu ÉPOCA, dona Marlene alternava o pé direito entre a cadeirinha de Emily e a de um cliente ocasional, Arthur, de 1 ano e 7 meses, para mantê-las balançando. As cadeiras estavam voltadas para a TV, sintonizada num noticiário da tarde, mas as crianças mantinham a cabecinha virada para os adultos. Vez ou outra choramingavam. Dona Marlene então balançava as cadeirinhas mais rápido, oferecia água e chupeta para as crianças. Tinham acabado de almoçar e suas fraldas foram trocadas. “É manha para ganhar colo”, diz ela. Arthur fica com dona Marlene esporadicamente, quando sua mãe precisa sair. Nessas ocasiões, dona Marlene cobra diária – entre R$ 20 e R$ 30. A pequena casa de dois quartos, com um corredor lateral que serve como quintal para os pequenos, já chegou a abrigar 20 crianças. É difícil imaginar, mas ela assegura que poderia ter até mais. “Criança limpa e alimentada com uma TV ligada não dá trabalho”, diz.

Diana Cordeiro de Oliveira, a mãe da pequena Emily, não pensa nem em tentar uma vaga na creche. A experiência lhe diz que não adianta. Diana tem outros dois filhos, de 20 e 19 anos, que não moram mais com ela. Eles, assim como Emily, nunca foram para uma creche. Para os filhos mais velhos, Diana não conseguiu vaga, apesar de ter renovado a inscrição por três anos seguidos. Para Emily, Diana chegou a checar a fila de espera e os horários de funcionamento quando engravidou – havia 340 crianças na fila para o berçário –, mas não chegou a se inscrever. Diana é cozinheira de uma padaria, onde trabalha das 5 horas da manhã às 2 horas da tarde, inclusive aos sábados e domingos. A exceção é a quarta-feira, sua única folga. Nesse dia, deixa Emily um pouco mais tarde na casa de dona Marlene, antes de seguir para um dia de faxina – seu complemento de renda. Mesmo se conseguisse uma vaga na creche, os problemas de Diana seriam apenas atenuados. Ela precisaria, de qualquer forma, contar com dona Marlene para cuidar de Emily nos finais de semana e durante as manhãs, antes do horário de abertura das creches. Teria ainda de arcar com o transporte para levar a bebê até a creche – um gasto que seu orçamento hoje não comporta. Diana vive sozinha com Emily. Não revela quanto ganha, mas afirma que o aluguel, as fraldas e os R$ 300 que paga para dona Marlene são suas principais despesas. O pai de Emily, um ex-namorado de Diana, não contribui com seu sustento nem ajuda a cuidar dela. Diana não é um caso isolado. De acordo com o IBGE, 40% das famílias em Heliópolis são sustentadas somente pela mãe. “Dou graças a Deus por ter dona Marlene”, diz Diana. “Não conseguiria criar minha filha sem ela.”

Dona Marlene é uma das mais tradicionais cuidadoras de crianças de Heliópolis, mas não é a única nem mesmo em sua rua. Na mesma calçada de sua casa, num sobrado grande e azulejado, mora dona Vera Borges, conhecida como a mãe comunitária mais antiga em atividade na comunidade. De acordo com Daiane Borges, filha da cuidadora (dona Vera não quis dar entrevista), a mãe cuida de mais de 20 crianças em diferentes horários. Faz isso há 30 anos. Bebês de poucos meses são comuns. “Não há vaga para os pequenos nas creches. Há famílias que conseguem a vaga quando a criança não tem mais idade para frequentá-la”, diz ela. Foi por causa da falta de creche para bebês que outra moradora de Heliópolis, dona Maria Pereira da Rocha, de 56 anos, começou a cuidar de crianças há três anos. Uma afilhada não conseguiu vaga na creche para o filho e a convenceu a cuidar dele. Em pouco tempo, o boca a boca trouxe outras crianças. Hoje dona Maria fica com seis, com idade entre 1 e 7 anos.

Não há números sobre a quantidade de mães crecheiras ou mães comunitárias em atividade no país. O levantamento divulgado pelo IBGE no final de março mostra que mais de 500 mil crianças entre 0 e 4 anos passam o dia fora de casa – com um parente ou outro adulto. As crianças pequenas cuidadas por mães crecheiras estão nesse contingente. Se for considerada a quantidade de crianças com mais de 4 anos que ficam com crecheiras fora do turno da escola, esse número pode triplicar. Um giro rápido por qualquer comunidade pobre das grandes cidades brasileiras mostra isso. Um levantamento na favela de Paraisópolis, em São Paulo, feito há dez anos, indicava a existência de 104 mães crecheiras. Esse dado não foi atualizado. O principal motivo para a falta de conhecimento sobre esses números é o caráter quase clandestino da atividade.

Apesar da importância histórica das mães crecheiras para as famílias mais pobres, a função não é reconhecida pelo Estado. Na esfera local, três Projetos de Lei para que o poder público reconheça, dê assistência, treinamento e acompanhamento ao trabalho dessas cuidadoras foram apresentados no Rio Grande do Sul, no Distrito Federal e em São Paulo, mas não avançaram. Nos três, duas preocupações comuns ajudaram a bloquear as propostas. A primeira é a incapacidade do poder público de garantir a qualidade do atendimento dado por essas cuidadoras. A segunda diz respeito à legislação trabalhista. Até que ponto reconhecer o trabalho que elas fazem não obrigaria o governo a prover benefícios, o que poderia comprometer as finanças do município? Esses receios não alteram a realidade. As mães crecheiras são a principal alternativa de famílias pobres. Reconhecê-las seria uma forma de proteger a família, a criança e a própria cuidadora, que tem uma grande responsabilidade em mãos. Em Portugal e na Colômbia, o trabalho das mães crecheiras integra um conjunto de programas para cuidados da criança e da família. Por lá, essas senhoras recebem treinamento, orientação e acompanhamento mensal. Se algo acontece com uma criança, as mães crecheiras têm prioridade no atendimento médico, assim como ocorre com creches e escolas. “Nesses países, essas mães fazem parte de uma grande rede de proteção mantida pelos ministérios da Educação, da Saúde, da Assistência Social e Cultura”, diz Daniel dos Santos, economista da Universidade de São Paulo de Ribeirão Preto, especializado em políticas para a infância.

A longeva existência de mães crecheiras e o papel essencial que elas desempenham na vida das comunidades mais pobres denunciam também dois problemas crônicos da política de creches. O primeiro é a falta generalizada de creches, conforme mostrou o levantamento do IBGE. O segundo é ainda mais grave: a maior carência de vagas concentra-se nos bairros mais pobres, enquanto o maior percentual de atendimento de creches se dá nos bairros mais ricos. Apenas 15% das crianças de 0 a 3 anos das famílias mais pobres do país são atendidas por creches. Entre as famílias que compõem a parcela de 30% mais ricos, esse percentual sobe para 64%. Os dados são de um levantamento feito por Ricardo Paes de Barros, economista-chefe da Cátedra do Instituto Ayrton Senna, no Insper. O que ocorre em São Paulo dá uma amostra de um problema nacional. Enquanto no Jardim Ângela, região com a menor renda per capita do município, faltam 4.769 vagas para crianças de 0 a 3 anos, no Jardim Paulista, região nobre da cidade, o déficit é de apenas 16 vagas.

“Essa realidade revela um erro brutal de política pública”, diz Claudia Costin, professora do Centro de Excelência e Inovação em Política Educacional, da Fundação Getulio Vargas. “São justamente as crianças das famílias pobres que mais precisam do efeito positivo da creche em sua formação.” Claudia Costin viu de perto o problema do erro de focalização da rede de creches públicas quando foi secretária de Educação da cidade do Rio de Janeiro. A forma que encontrou para lidar com o problema foi concentrar os novos investimentos nas regiões com mais beneficiários do Bolsa Família. “Não conseguimos vagas para todos, mas as que criamos foram para os que mais precisam”, diz. São Paulo também atrelará a concessão de novas vagas ao Bolsa Família. Hoje, apenas 38% dos beneficiários do programa na cidade estão na creche. “Educação e Assistência Social precisam trabalhar juntas para apoiar os pais que precisam de ajuda fora dos horários das creches e encontrar uma forma de lidar com as mães crecheiras”, diz o secretário de Educação, Alexandre Schneider.

É importante o poder público encontrar uma forma de incorporar as mães crecheiras à rede de proteção das crianças de famílias pobres. Elas existem aos milhares e são parte fundamental da organização da vida dos mais vulneráveis, como mostra o exemplo de dona Marlene, de Heliópolis. Ao ignorá-las, o Brasil fecha os olhos também para suas crianças.

Quanto mais pobre, menos creche (Foto: Época)