No dia 11 de julho de 2017, representantes de 193 países reunidos na sede da Organização das Nações Unidas (ONU) ouviram Larissa Sousa discursar sobre pobreza e genocídio. Os dois tópicos que permearam a fala dela é familiar a esta jovem de 18 anos, lésbica, filha de migrantes nordestinos e moradora do Jardim Prainha, bairro do Grajaú localizado às margens da represa Billings, no Extremo Sul de São Paulo.

“Quando eu tava lá, eu fiz questão de enfatizar de onde eu vinha e que eu era uma exceção surreal porque os jovens daqui não possuem oportunidades como essa. Eu tenho apenas 18 e tenho certeza que quero trabalhar na área social desde os 15, e ver como as coisas funcionam em escala macro (mesmo sendo uma visão neoliberal) vai me fortalecer muito nessa caminhada”, aponta.

Larissa foi a Nova Iorque participar do High Level Political Forum, evento da ONU para acompanhar o compromisso dos países com a Agenda 2030 e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, plano global criado para garantir o futuro político, social, econômico e ambiental das próximas gerações.

“A ONU tem uma forte importância e influência mundial então ter tido a oportunidade de fazer uma fala em um ambiente desse e ainda contribuir na agenda 2030 é fenomenal, surreal e nem consigo descrever”, conta ela.

Ela participou do Fórum por meio do projeto Plataforma Meninas no Poder, desenvolvido pela organização Plan International do Brasil para lutar pela igualdade de gênero.

E o contato com essa plataforma se deu enquanto Larissa participava do curso de Midiativismo, Fotografia e Direitos Humanos, realizado no ano passado pelo Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente – CEDECA Interlagos.

“Além do meu discurso sobre a juventude pobre periférica sendo morta pelo poder público, falei na Unicef sobre o quanto é mais que necessário que jovens estejam discutindo e se apropriando de espaços como esse também”, completa.

Leia abaixo a íntegra do discurso de Larissa na ONU:

Oi, meu nome é Larissa, tenho 18 anos e moro em São Paulo no bairro do Grajaú, na periferia da cidade.
 
Venho de uma família pobre, por isso o tema dessa sala é muito familiar para mim e, infelizmente, para tantos outros jovens brasileiros.
 
A pobreza tem vários impactos negativos na vida de uma criança ou adolescente como eu. Falta de saneamento básico, desnutrição, que influencia na dificuldade de aprendizado,  moradias impróprias, isso quando há moradia.
 
Faço parte de um projeto chamado Meninas no Poder, da Plan International Brasil.
Conheço meninas que não podem frequentar as oficinas regularmente, porque em alguns dias não têm nem o dinheiro da passagem de ônibus.
 
Mas, para mim, uma das consequências mais revoltantes da pobreza é a violência.
 
Entre 1980 e 2013, a taxa de mortes por homicídio no meu país cresceu mais de 372%. As taxas de suicídio e acidentes, diminuíram com o tempo. Só o número de homicídios aumentou.
 
Quem são essas pessoas que estão morrendo?
 
A faixa etária de 16 e 17 anos, teve o maior crescimento no número de mortes.
 
Em 23 anos, o número de homicídios entre esses adolescentes cresceu 496%.
 
O nível educacional das vitimas de homicídio é muito baixo.
82% dessas pessoas frequentou a escola por no máximo 7 anos, quando o tempo mínimo recomendado é de 13 anos de estudo.
 
Esses números chocantes mostram que a miséria, falta de acesso à educação de qualidade e exclusão social, são alguns dos fatores que impulsionam a violência e que adolescentes são as maiores vitimas.
 
Por que chamo essas pessoas de vítimas? Porque as políticas públicas não são eficientes a ponto de alcançar esses jovens mais vulneráveis. Ao invés de zelados, são culpabilizados e exterminados pelo poder público.
  
Alguém aqui sabe o que é auto de resistência? É quando a polícia justifica o assassinato de alguém como legítima defesa, ou seja, quando o suspeito reagiu e a polícia teve que atirar. Convido cada um de vocês a pesquisar sobre o assunto. Assim verão quantos jovens que não reagiram à uma abordagem policial são assassinados, quantos desses processos têm sido arquivados e encobertos pelo poder público.
 
Na pesquisa U-Report Brasil, feita com mais de 700 jovens, o segundo objetivo mais votado por eles é o ODS 16, que tem como meta a Paz, Justiça e Instituições Fortes. Isso diz muito sobre o que queremos.
 
Um cálculo feito pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento, dá um panorama do impacto financeiro do crime no Brasil. Segundo essa estimativa, o crime rouba cerca de 10% do PIB nacional, o que dá mais de 100 Bilhões de reais por ano.
 
O que é mais eficaz? Prevenir ou remediar?
 
São 100 bilhões gastos com prejuízos materiais, tratamentos médicos, indenizações, horas de trabalho perdidas.
 
Por que não investir em pesquisas?
Por que não investir em prevenção?
Por que não investir em serviços públicos amigáveis à juventude?

A juventude pobre brasileira não se sente protegida, ela está amedrontada.
 
Eu represento essa juventude aqui e hoje e não quero mais temer.