Por Cida de Oliveira, na Rede Brasil Atual

A vereadora Sâmia Bonfim (PSol) está coletando assinaturas para a instauração de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar o programa de erradicação da fome e de promoção da função social dos alimentos criado pelo prefeito João Doria (PSDB).

Baseada na produção e distribuição de uma “ração”, que a prefeitura prefere chamar de Farinata, produzida pela Plataforma Sinergia a partir de sobra de alimentos fora do padrão ou perto do fim da validade, o programa polêmico será implementado ainda este mês, com a incorporação na merenda escolar dessas farinhas, o que a gestão Doria chama de “suplementação alimentar”.

Sâmia quer elucidar questões para as quais a gestão Doria não tem resposta, como as razões de priorizar o processamento de alimentos, muitos deles já industrializados, quando poderia distribuir alimentos in natura em mercadões nas periferias e criar restaurantes populares.

Para ser instaurada, a CPI necessita da assinatura de 2/3 dos 55 vereadores. Desde ontem (18), a parlamentar passou a percorrer os gabinetes para convencer os colegas a apoiar a proposta.

Desde o último dia 8, quando anunciou o projeto, Doria tem sido alvo de críticas de especialistas em nutrição e de entidades, que têm se posicionado contra a proposta. Entre eles, o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea) e o Conselho Regional de Nutricionistas de São Paulo (CRN-SP). Até agora, o arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer, é o único nome de peso a sair em defesa da ração do prefeito tucano. Segundo o religioso, “pobre não tem padrão alimentar. Tem fome”.

Na manhã de ontem, a Cúria Metropolitana realizou coletiva com a presença do arcebispo, do prefeito Doria, da secretária municipal de Direitos Humanos, Eloísa Arruda, e da fundadora da Plataforma Sinergia Rosana Perrotti, responsável pela industrialização da “ração”.

Diante de dezenas de jornalistas, Doria anunciou que os pães na mesa do café servido continham a Farinata na composição. E na sequência, ele e Scherer, em ato simbólico que lembrava a última ceia de Cristo, partiram um pedaço de pão que, segundo o prefeito, continha a farinha, e comeram.

Doria hostiliza nutricionista

Visivelmente pouco à vontade na coletiva depois de um processo de desgaste político que vem enfrentando, Doria chegou a perder a compostura ao ser questionado pela nutricionista Joyce Martins durante a entrevista. E foi ríspido e desrespeitoso com a profissional.

“O que a gente entende aqui, prefeito, é que os alimentos serão liofilizados e distribuídos. Mas a gente tem um desperdício muito grande de mercadões e a gente tem tentado questionar a prefeitura sobre as ações em relação a isso. Por que não investir por exemplo em restaurantes populares ou mercadões nas periferias ou ao incentivo à produção orgânica para a merenda?”, questionou.

“Por que não investir nessas ações ao invés de, por exemplo, liofilizar o alimento que poderia ser distribuído in natura? Outra pergunta que não ficou muito bem respondida: essa isenção de ISS e de IPTU com os comércios, restaurantes, indústrias… quanto a prefeitura vai deixa de arrecadar?

Ríspido, Doria quis saber qual o veículo para o qual Joyce trabalharia. Logo que respondeu trabalhar para a Câmara, ele logo quis saber para qual parlamentar.

“Qual Câmara? Você está ligada a qual vereador? A qual vereador você está ligada?”

E engrossando, endurecendo o tom: “A qual vereador? Você fez uma série de questionamentos. Você não é jornalista. Você é uma pessoa que ao invés de contribuir positivamente para esse processo, você contribui para o ‘processo degenerativo’. Você não deveria sequer estar aqui… Você está ocupando espaço daqueles que são profissionais e gostariam de fazer pergunta…. Eu peço a você que fique quieta e respeite os jornalistas que estão aqui, que vieram fazer o seu trabalho.”