Por Regiane Soares, Educadora do Projeto RUAS no CEDECA Interlagos, em atividade com crianças no Cantinho do Céu

Alguma realidade ou outra sempre nos atravessa de alguma forma…

Há alguns meses atrás comecei a descer um escadão por mim desconhecido. Fica em uma região daquelas que a gente lembra-se de letra de música: “nunca vi nem comi… eu só ouço falar…”, no Grajaú, ou melhor, no Cantinho do Céu. O nome do bairro já é bem sugestivo, ainda mais levando em consideração que fica a beira de uma das principais represas da cidade de São Paulo, você vai imaginando um cenário: cantinho do céu!

O ESCADÃO em questão da acesso a rua Porto Seguro – outro nome que me remete a tanta coisa: um porto “seguro”. Os nomes e termos são mesmo significativos. Das infinitas contradições entre imaginário e realidade, o que eu encontrei ao final do escadão onde a rua Porto Seguro começa foi daquelas contradições que te deixa com nó na cabeça, com a boca seca enquanto a saliva te engasga na garganta. Não cabe detalhar o cenário – que todas (os) nós conhecemos bem! – mas definitivamente não parecia em nada com um porto, não é nada seguro e parece muito distante de qualquer cantinho do céu.

O choque aumenta quando finalmente chego ao local das atividades e as crianças que já participam do grupo há um ano distribuem sem esforço: abraços (daqueles apertados), olhares curiosos, sorrisos e uma vontade indescritível de fazer alguma coisa – toda vez que os encontro, ainda fico matutano que “coisa” é essa que eles (as) tanto querem fazer. O choque é na verdade uma tríplice entre: Imaginário, realidade e realidade apresentada.

O imaginário é a projeção que se faz antes de chegar ao território, é um processo de elaboração carregado de muita expectativa, que nos faz pensar: estamos prontos!

A realidade é o choque, momento em que o imaginário “cai por terra” e a única certeza que se tem é: é muito mais complexo do que qualquer coisa que imaginei!

E por fim, a realidade apresentada, essa é a ressignificação tanto do imaginário, quanto da realidade dada, pois essa é construída a partir da fala das próprias crianças. A realidade apresentada é o contexto, a troca e o próprio processo que as crianças elaboram sobre aquele espaço, aquelas experiências. E que nós só descobrimos/entendemos e ressignificamos quando as ouvimos. Aquele ouvir sem amarras.

Esse texto tem continuação, pois tratar das contradições e processos metodológicos que se apresentam com a nossa chegada no território é uma demanda interminável, uma vez, que o próprio processo é sempre continuo e toda semana as crianças nos colocam em cheque para repensarmos nossas próprias práticas e por que não dizer táticas.

O que sei é que imaginário, realidade e realidade apresentada é processo constante de quem atua na periferia, de quem atua na violação de direitos e de quem se propõe a ressignificar existências…

Contradições!